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25 de fevereiro de 2012

Tempo Perdido

Enquanto me organizo para tentar mudar um pouco o blog, notei que quase não falo do que estou lendo ou do que quero ler, então o post de hoje é uma nova tentativa de inaugurar uma categoria: Prateleira.

E vou começar justamente por um livro que quero comprar - "História de uma década quase perdida – PT, CUT, crise e democracia no Brasil: 1979-1989", do historiador Gelsom Rozentino de Almeida. Lançado pela Garamond, com apoio da FAPERJ, o livro aborda um trecho da história da democracia recente no Brasil sobre um ângulo novo, combatendo a idéia de que a década de 80 no Brasil foi a "década perdida", tanto em termos políticos quanto econômicos.

Me chamou atenção não só pela abordagem, como pelo recorte, que talvez seja um dos campos historiográficos mais frutíferos ainda inexplorado (pelo menos no viés historiográfico, segundo o autor); e principalmente um dos primeiros a tocar na percepção cultural e social da década de 80, ainda que seja pelo caminho político. 

Esse Zeitgeist (espírito da época) da "década perdida" permanece ainda pouco tocado no campo historiográfico brasileiro e, curiosamente, ainda fora dele. Só agora que surgem obras acadêmicas e até mesmo artísticas abordando esse sentimento que caracterizou os anos 80 no mundo todo.

Enquanto a moda e a cultura de massa reviveu a década nos últimos anos em seu aspecto colorido, exagerado e espalhafatoso, o lado sombrio dos anos de ferro, da corrida espacial, da guerra fria, da ameaça nuclear e do campo político neo-conservador ficou um tanto quanto relegado à sombra acadêmica, talvez pelo incomodo ainda presente que causa.

Curiosamente a relação dessa percepção social com a política, e principalmente a política brasileira ainda presa às estruturas do Regime Militar, foi pouquíssimo discutida e deglutida. Justamente por isso me interessou a proposta do autor de relacionar os dois aspectos. O livro é fruto de sua pesquisa de doutorado e tenta conciliar o surgimento de 3 estruturas:  "três agentes políticos que despontaram na época podem ser considerados a base do processo de redemocratização que marcou os anos 1980: o Partido dos Trabalhadores (PT), a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST)"¹ que pautariam a discussão política das décadas seguintes e participariam ativamente do processo de redemocratização e consolidação posterior dela com a sensação de "tempo perdido" que dominou a década em todos os aspectos.

Não sei como o autor desenvolve seu argumento, mas com certeza está na minha lista de próximas aquisições, ainda que nada tenha a ver com a minha pesquisa. Esse assunto desperta interesse por vários aspectos e para mim é especial por ser relativo a minha memória afetiva - Ainda que eu espere uma obra mais completa em relação a mentalidade histórica dos anos 80, especialmente sobre essa percepção, imortalizada em uma música, quase um hino dessa geração:




Fonte e Imagem: FAPERJ 


Nota: 
1- Motta, Débora. Livro destaca a importância dos anos de 1980 para a democratização do Brasil Resenha do livro supracitado  (http://www.faperj.br/boletim_interna.phtml?obj_id=7913).

11 de fevereiro de 2012

Mil Folhas, Muros e Árvores de Natal

Xingar o governo é fácil.

Reclamar de leis, da dança das cadeiras em ministérios, da ausência do poder público, da demora de tal mudança, da rapidez daquela outra, etc.
 
Não que reclamar seja o problema, já que é importante manter uma atitude crítica perante todo e qualquer governo. O condicionamento entre reclamação e ação também não é exatamente sempre uma lacuna, uma vez que a postura crítica, quando verbalizada, se torna um indício e até mesmo um sinal de transformações - ainda que por muitas vezes esse desejo esteja limitado a um grupo ou categoria, que acaba não entendendo o porquê de sua crítica não ser efetivada.

#ForaSarney não tira ninguém do poder, mas emite um sinal de pensamento social importante, sem dúvida. 

Já de cara daria para constatar uma ausência de análise quando um tipo de expressão espontânea dessas surge e é imediatamente desqualificada enquanto fator de transformação na sociedade: A incapacidade de uma expressão de pensamento efetivar mudanças traduz que essa expressão talvez seja limitada ou mal direcionada. Ou até em uma análise mais ampla - e bem mais óbvia - ela ainda não traduz o pensamento de uma maioria significativa, cujo quantitativo mínimo seja capaz de transformar algo.

Mas a questão me traz aqui hoje está alguns degraus mais embaixo. Quanto dessas expressões de insatisfação são realmente capazes de compreender o complexo processo de formação histórica da organização política nacional?


Trocando em miúdos, quando reclamamos do governo, temos idéia de quê estamos reclamando? E o que isso tem a ver com a filosofia da história?

17 de outubro de 2011

O que é Imortal

Então, dando prosseguimento aos trabalhos deste blog... #DeputadoFederalFeelings

Brincadeira! Tenho trabalhado bem pouco por aqui e a sensação de que entrei em um modo "congresso brasileiro" (expediente só de terça à quinta) cresceu um pouco. Para mostrar serviço e dar um ar mais de "Blog" ao projeto, vou começar a postar alguns links e vídeos de material que considero interessantes, enquanto encubo meus rascunhos em uma estufa.

Segue abaixo a entrevista no Jô de um dos poucos mestres de verdade na arte da Historiografia, o professor da UFRJ e Imortal da Academia Brasileira de Letras José Murilo de Carvalho. Autor de um trabalho indispensável pra quem quiser trilhar o caminho da historiografia (não só a brasileira), ele dá uma verdadeira aula de como a democracia se desenvolve no país até hoje.

Nunca tive aulas com ele, mas tive o imenso prazer de ler os seus livros e até hoje acho um dos trabalhos mais brilhantes escritos sobre a história do país. 

Vendo a entrevista me lembrei da época em que ele foi imortalizado pela ABL e, pra variar, deixaram uma piada no quadro do Salão Nobre:

"O que é imortal, não morre no final"

Piada ou não, faz todo o sentido.


3 de outubro de 2011

Independente F.C.


Esse texto incialmente foi escrito no dia 07 de setembro, mas por motivos de força maior (churrasco no dia, preguiça depois) não pode ser concluído e postado na data.

Eu tinha prometido a mim mesma que não iria me arriscar tão cedo a montar um novo blog, mas cá estou fazendo justamente as duas últimas coisas que queria nesse feriado - criando um blog e trabalhando.

Pra quem chegou sem aviso, tenho 500 outros blogs sobre besteiras e baboseiras em geral (mentira, são só 3) e há tempos venho tentando sufocar a vontade súbita de escrever sobre meu trabalho - que consiste basicamente em... escrever.  

Tu-dum-pah!

Mas esse blog não tem a mínima pretensão ou obrigação de ser estritamente acadêmico ou consistir em pesquisa historiográfica pura. Não vou facilitar a vida nem a pesquisa de ninguém, e também não quero me ater à liguagem formal/técnica exigida na labuta... Isso aqui é um ensaio, um blog de comentários e conceitos com os quais trabalho e um pouquinho de descontração aliada a uma discussão contextualizada com o assunto que me der na telha.

Feita a introdução, vamos ao que interessa.

O que disparou o gatilho foi uma discussão entre amigos no Facebook, a partir de um comentário postado por uma amiga muito querida que é Geógrafa. O que invariavelmente acontece nesse tipo de situação: não consigo passar batida e fingir que não li. Ainda mais conhecendo a autora do comentário e a visão de História comum na sociedade brasileira que, volta e meia, deixa à mostra as falhas que historiadores como eu cometem por omissão.

Sim, a culpa é minha também.

Mas não há como esbarrar nesses tipos de desvio e, pelo menos, se esforçar um pouquinho para enfrentá-los.

[Ela] - Não é essa a independência que quero.

[Eu, provocando] - Tem outra?

[Ela] -  A conquistada teria sido bem melhor...

Bingo! Bem vindos ao primeiro desvio: A Retrodição.