30 de abril de 2012

O Homem que Mediu o Egito

Retomando os vídeos da segunda e voltando um pouco para meu foco de pesquisa, o vídeo abaixo é um documentário na íntegra sobre a vida e obra de W. M. Flinders Petrie, um dos maiores egiptólogos da história do campo acadêmico. 

Mais que uma biografia, o documentário revisita toda a trajetória do arqueólogo, desde sua formação até algumas polêmicas envolvendo seu trabalho - como o flerte com a eugenia e teorias de determinismo social - a paixão e obsessão pela mesuração e metodologia sistemática e a contribuição de seus estudo de cronologia serial em artefatos.

Porém o que torna esse documentário emblemático para a minha pesquisa é o desenvolvimento da Egiptologia enquanto ciência na virada do século XIX para o séc. XX, especialmente ao apontar na trajetória de Petrie, e no seu posteior reconhecimento, a guinada sistemática da Arqueologia. E de como essa tendência se consolidou como foco principal, dotando a Egiptologia de um caráter objetivo e tecnológico.



12 de março de 2012

10 Homens e Uma Sentença

O Vídeo da Segunda de hoje é particularmente um dos meus favoritos.

Assisti pela primeira vez como um dos extras do dvd Spartacus - filme clássico dirigido por Stanley Kubrick, que tinha como roteirista Dalton Trumbo, um dos homens listados como comunistas e proibido de trabalhar em Hollywood durante os anos do Macartismo. Trumbo, assim como outros fazia parte de uma lista de perseguição que originalmente continha 10 nomes (os chamados Os 10 de Hollywood), mas que em pouco tempo chegou a mais de 50 nomes.

 The Hollywood Ten é um curta documentário dirigido por John Berry (outro nome da famigerada lista) em 1950 visando denunciar a perseguição política e as denuncias fantasiosas do senador McCarthy. 

Fiquei feliz de encontrá-lo disponível na íntegra no Youtube, mas infelizmente não encontrei nenhuma versão com legendas em português. Ainda assim, vale a pena assistir.

27 de fevereiro de 2012

Como se constrói uma Crise

A crise econômica dos EUA nem está mais nas pautas do dia, mas continua com força total. A agonia do modelo politico e econômico norte-americano resulta numa tentativa deseperada (imitada pela imprensa brasileira) de defender o Capitalismo Liberal (ou Neoliberal) com unhas e dentes, e de tentar entender o que parece bastante óbvio. 

Mas será tão óbvio assim?

Os 2 vídeos de hoje são trailers de documentários nem tão recentes, mas que explicam bastante sobre a crise norte-americana e os motivos pelos quais ela não é revertida. São ótimas sugestões para quem quiser entender o processo e, principalmente, para esclarecer de vez quem ainda acredita no discurso da imprensa. 

Tanto a deles, quanto a nossa.




25 de fevereiro de 2012

Tempo Perdido

Enquanto me organizo para tentar mudar um pouco o blog, notei que quase não falo do que estou lendo ou do que quero ler, então o post de hoje é uma nova tentativa de inaugurar uma categoria: Prateleira.

E vou começar justamente por um livro que quero comprar - "História de uma década quase perdida – PT, CUT, crise e democracia no Brasil: 1979-1989", do historiador Gelsom Rozentino de Almeida. Lançado pela Garamond, com apoio da FAPERJ, o livro aborda um trecho da história da democracia recente no Brasil sobre um ângulo novo, combatendo a idéia de que a década de 80 no Brasil foi a "década perdida", tanto em termos políticos quanto econômicos.

Me chamou atenção não só pela abordagem, como pelo recorte, que talvez seja um dos campos historiográficos mais frutíferos ainda inexplorado (pelo menos no viés historiográfico, segundo o autor); e principalmente um dos primeiros a tocar na percepção cultural e social da década de 80, ainda que seja pelo caminho político. 

Esse Zeitgeist (espírito da época) da "década perdida" permanece ainda pouco tocado no campo historiográfico brasileiro e, curiosamente, ainda fora dele. Só agora que surgem obras acadêmicas e até mesmo artísticas abordando esse sentimento que caracterizou os anos 80 no mundo todo.

Enquanto a moda e a cultura de massa reviveu a década nos últimos anos em seu aspecto colorido, exagerado e espalhafatoso, o lado sombrio dos anos de ferro, da corrida espacial, da guerra fria, da ameaça nuclear e do campo político neo-conservador ficou um tanto quanto relegado à sombra acadêmica, talvez pelo incomodo ainda presente que causa.

Curiosamente a relação dessa percepção social com a política, e principalmente a política brasileira ainda presa às estruturas do Regime Militar, foi pouquíssimo discutida e deglutida. Justamente por isso me interessou a proposta do autor de relacionar os dois aspectos. O livro é fruto de sua pesquisa de doutorado e tenta conciliar o surgimento de 3 estruturas:  "três agentes políticos que despontaram na época podem ser considerados a base do processo de redemocratização que marcou os anos 1980: o Partido dos Trabalhadores (PT), a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST)"¹ que pautariam a discussão política das décadas seguintes e participariam ativamente do processo de redemocratização e consolidação posterior dela com a sensação de "tempo perdido" que dominou a década em todos os aspectos.

Não sei como o autor desenvolve seu argumento, mas com certeza está na minha lista de próximas aquisições, ainda que nada tenha a ver com a minha pesquisa. Esse assunto desperta interesse por vários aspectos e para mim é especial por ser relativo a minha memória afetiva - Ainda que eu espere uma obra mais completa em relação a mentalidade histórica dos anos 80, especialmente sobre essa percepção, imortalizada em uma música, quase um hino dessa geração:




Fonte e Imagem: FAPERJ 


Nota: 
1- Motta, Débora. Livro destaca a importância dos anos de 1980 para a democratização do Brasil Resenha do livro supracitado  (http://www.faperj.br/boletim_interna.phtml?obj_id=7913).

14 de fevereiro de 2012

History. Not History.

Só depois que publiquei o post anterior me dei conta do quanto o título soou meio pecesiqueira... Mas não vou trocar, fica a título de referência cultural.

Hoje é segunda (na verdade madrugada de terça) e a partir de hoje vou instituir o "vídeo da segunda" pra quebrar a monotonia.

Apesar de já ter postado no Twitter, não custa lembrar ao canal History Channel que o que eles fazem nada tem a ver com História.


E tem coisa mais deprimente que Caminhoneiros do Gelo?


11 de fevereiro de 2012

Mil Folhas, Muros e Árvores de Natal

Xingar o governo é fácil.

Reclamar de leis, da dança das cadeiras em ministérios, da ausência do poder público, da demora de tal mudança, da rapidez daquela outra, etc.
 
Não que reclamar seja o problema, já que é importante manter uma atitude crítica perante todo e qualquer governo. O condicionamento entre reclamação e ação também não é exatamente sempre uma lacuna, uma vez que a postura crítica, quando verbalizada, se torna um indício e até mesmo um sinal de transformações - ainda que por muitas vezes esse desejo esteja limitado a um grupo ou categoria, que acaba não entendendo o porquê de sua crítica não ser efetivada.

#ForaSarney não tira ninguém do poder, mas emite um sinal de pensamento social importante, sem dúvida. 

Já de cara daria para constatar uma ausência de análise quando um tipo de expressão espontânea dessas surge e é imediatamente desqualificada enquanto fator de transformação na sociedade: A incapacidade de uma expressão de pensamento efetivar mudanças traduz que essa expressão talvez seja limitada ou mal direcionada. Ou até em uma análise mais ampla - e bem mais óbvia - ela ainda não traduz o pensamento de uma maioria significativa, cujo quantitativo mínimo seja capaz de transformar algo.

Mas a questão me traz aqui hoje está alguns degraus mais embaixo. Quanto dessas expressões de insatisfação são realmente capazes de compreender o complexo processo de formação histórica da organização política nacional?


Trocando em miúdos, quando reclamamos do governo, temos idéia de quê estamos reclamando? E o que isso tem a ver com a filosofia da história?

2 de dezembro de 2011

Nem Toda Nudez Será Castigada

Enquanto algus posts continuam seu processo de incubação e edição, vou fazer o que faço melhor - encher o saco dos meus amigos!

Em tese esse post também ficou um tempinho na incubadora, mas vou posta-lo meio cru por total culpa de sempre ceder à tentação de me meter nos textos alheios e ficar criticando (ou pinçando) conceitos históricos defasados - atitude que venho questionando em mim mesma de uns tempos para cá.

Vou elaborar esse dilema com mais calma, mas por ora fica o post (ou parte dele) original.

Estava como de costume lendo o blog do Daniel, um post sobre uma polêmica gerada por uma mostra de Arte no Rio (post excelente, diga-se de passagem) e ao explicar a diferença de relação com a imagética do corpo e sexualidade na cultura brasileira e na cultura alemã contemporânea (ou pós-contemporânea para os mais puristas), ele levantou uma possível interpretação:

"(...)Você tem razão que o Brasil é um país contraditório na questão da nudez. A resposta é que o Brasil ainda é muito machista. Nudez feminina é muito tolerada. Já a masculina ou de transgêneros, nem tanto. E o Brasil ainda é um país que associa imediatamente a nudez ao sexo e, ainda por cima. vende essa imagem,(...). Na Alemanha eu percebi que as pessoas são bem mais despudoradas em relação ao próprio corpo, mas essa liberdade não se confundia com libertinagem. Vi cartões postais de gente pelada à luz do dia em lugares movimentados de Berlim, mas eu não conseguia sentir o sexo vindo dali, e sim um desapego ao pudor. Deve ser coisa desses povos que não foram colonizados pelos romanos."

O ensino continua refletindo aqueles conceitos errôneos de que "após o declínio de Roma, os povos bárbaros invadiram a Europa e blá blá blá" Mas o que se entende hoje em dia é que na verdade houve uma fusão cultural entre o Império Romano esfacelado e os povos nômades, gerando o que chamamos de cultura Romano-germânica, que seria a base da cultura e sociedade da Idade Média.

Só estou bancando a chata porque ajuda a explicar a lebre que ele levantou - Na verdade os povos ditos germânicos são muito mais herdeiros da cultura romana que nós e, portanto, herdaram da antiguidade a noção de exposição corpórea (e sexual) vinda da religião e das artes antigas, o chamado Classicismo. Essa noção foi discutida e passou por transformações na Idade Média - principalmente com a expansão do cristianismo - mas a persistencia do contato com a cultura antiga permitiu o resgate constante dessa relação, mesmo nas eras modernas e contemporâneas. Diferente de nós, que mais ligados ao imaginário cultural do cristianismo, não tinhamos outra relação para resgatar a não ser o naturismo dos povos pré-colonização.

A presença forte da dinâmica Reforma - Contra-Reforma na região germânica ajuda também a explicar parte dessa relação de resgate e diálogo na construção da imagética da arte européia: a cisão entre a nudez na arte e o puritanismo pessoal, que se tornou um elemento da construção ideológica do Iluminismo sobre a arte (e até mesmo foi re-re-resgatada por Hitler na construção ideológica do Nazismo, em termos da estética do ideal ariano - basta lembrar dos filmes de Riefenstahl).

Estou, nessas curtas explanações, ignorando deliberadamente milhares de pormenores da construção da imagética sexual e artística do lado de cá do Atlântico, bem como todos os casos de estudo de gênero em relação à visão da nudez feminina e a sexualização objetificada. Na verdade um dia planejo me degladiar com o assunto, mas hoje estou meio sem paciência para entrar no terreno pantanoso dos estudos de gênero e a aflição que eles me causam. Sim, sou mulher e não tenho saco (trocadilho infame) para esse tipo de corrente - muitas vezes eles não passam de panfletagem discarada e cometem um dos maiores erros da seara dos estudos sociais: a projeção anacrônica de conflitos sociais. 

Um dia eu falo sobre isso, podem me cobrar.

O que me incomodou foi somente o deslize comum de separar a relação Império Romano e Cultura Germânica, que é pessimamente explicada nas escolas. Principalmente por professores afoitos para pular da Antiguidade para a Idade Média sem estruturar o processo de transformação cultural e social entre os dois.

Existem, dentro e fora do Brasil, milhares de trabalhos sobre essa relação, alguns muito interessantes no campo de imagem e corpo - não só sobre a Antiguidade e Idade Média, como também específicamente sobre a cultura Romano-germânica. Caso seja interessante, volto aqui e listo algumas fontes historiográficas.

Fora que o assunto de construção imagética na Alemanha tem milhares de desdobramentos que cobri aqui porcamente, mas não vou escrever milhões de teses sobre o assunto. Fica a dica de pesquisa, povo.

No momento vou voltar para as minhas anotações de pesquisa e as confusões que tenho me metido atualmente. 

Esperem muitos posts em breve.


25 de outubro de 2011

Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera


Do Kibeloco:

"Se você é daqueles que acredita que propaganda política é sempre chata, melhor mudar de ideia. E o argumento, quem diria, não vem dos sempre liberais americanos e tampouco dos ousados europeus, mas, sim, da Tunísia.

Berço da Primavera Árabe, nome dado à onda de revoltas populares que tomou conta de países do Oriente Médio e norte da África, o país foi às urnas pela primeira vez depois da queda do ditador Zine El Abidine Ben Ali. E tudo correu muito bem, obrigado. Estima-se que cerca de 7,3 milhões de eleitores votaram e o ambiente foi de tranquilidade.

Para isso, no entanto, uma campanha de conscientização muito criativa tomou conta das ruas. E o chamariz – vejam só! – foi o menos popular de todos: um retrato gigante do odiado Ben Ali. Assistam…



Pois é. Depois que a foto do ditador era arrancada, uma mensagem incentivando o voto – que só é obrigatório por aqui – surgia: “Cuidado! A ditadura pode voltar! Dia 23 de outubro, vote!”

Muito melhor que panfleto e telemarketing, né? Pois é. Precisamos aprender com os árabes. Taí o Kadhafi que não me deixa mentir."

De acordo com um dos comentários no Youtube, a declaração abaixo aparece na propaganda da TV:

"This is a campaign to encourage people to vote. It took the giant portrait of the dictator. You can see the reaction of passers worrisome and angry. And when they remove the portrait, they are behind the poster that says:

- Wake up! dictatorship can come back. On October 23, Go vote!"

Essa é para aqueles que acreditam que países árabes não entendem nada de democracia.

20 de outubro de 2011

Primavera nos Dentes


Vou dar uma breve pausa nos textos de investigação metodológica e/ou sobre historiografia para comentar algo um pouco mais próximo da minha realidade como pesquisadora.

Eu trabalho (no momento) com uma pesquisa de linha crítico-metodológica em Egito faraônico, mas é impossível não acompanhar os desdobramentos políticos do Egito atual desde janeiro deste ano - no que ficou conhecido como a "Primavera Árabe".

Já de cara eu não gosto muito desse nome: é uma alcunha ocidental sobre conflitos internos de poder em um universo cultural que não é tão homogêneo quanto gostaríamos de admitir. Graças à CNN e outros veículos de notícia somados a uma intensa propaganda orientalista norte-americana passamos a enxergar, no pós 11 de setembro, tudo que leva o título árabe como pertencendo a um grupo étnico-cultural só. Se essa generalização já era comum desde a Idade Média, com a guerra contemporânea ao "terror" ganhou um reforço ainda maior.

De acordo com as informações que nos são impostas todo árabe é mulçumano, todo país mulçumano tem um grupo extremista-radical, todo mundo tem ódio da civilização ocidental (isso por que eles não conhecem o McDonnalds).

Quando Edward Said cunhou o termo Orientalismo pela primeira vez sabia que estava encerrando mais de um conceito em torno da palavra: para ele Orientalismo não só era a prática de diferenciação imagética de uma lógica imperialista que procurava colocar o chamado Ocidente como superior ao conjunto mistificado do Oriente, como também era uma prática de análise cientificista que buscava "explicar" e "entender" o Oriente (tomado todo como um conjunto só) para o Ocidente (esse sim fragmentado culturalmente por ser superior). O orientalismo descrito por Said pode ser facilmente percebido quando aparecem os "especialistas em mundo árabe" em diversos telejornais explicando pra população que árabes são maus e invejam as maravilhas do mundo ocidental que não tem, são cruéis com suas mulheres e radicais em seus pontos de vista.

Construída essa imagem ocidentalizada e revestida de um caráter científico, parece fácil entender o que aconteceu de janeiro pra cá - os povos árabes finalmente se cansaram das suas ditaduras e resolveram que queriam uma democracia perfeita como a nossa [insira sua ironia aqui] e, coitados, mesmo saindo nas ruas e pegando em armas, eles ainda tem que lidar com grupos radicais que querem tomar o poder no segundo imediato e como bons ocidentais, detentores da verdade e justiça, só nos resta acompanhar o processo e impedir que aconteça um massacre. Estados Unidos, União Européia e ONU já foram avisadas para ficar de prontidão caso algum barbudo de turbante tome o poder, e ajudar esses pobres coitados a encontrar o caminho da igualdade, dos direitos humanos e do KFC mais próximo.

Lindo, né?

17 de outubro de 2011

O que é Imortal

Então, dando prosseguimento aos trabalhos deste blog... #DeputadoFederalFeelings

Brincadeira! Tenho trabalhado bem pouco por aqui e a sensação de que entrei em um modo "congresso brasileiro" (expediente só de terça à quinta) cresceu um pouco. Para mostrar serviço e dar um ar mais de "Blog" ao projeto, vou começar a postar alguns links e vídeos de material que considero interessantes, enquanto encubo meus rascunhos em uma estufa.

Segue abaixo a entrevista no Jô de um dos poucos mestres de verdade na arte da Historiografia, o professor da UFRJ e Imortal da Academia Brasileira de Letras José Murilo de Carvalho. Autor de um trabalho indispensável pra quem quiser trilhar o caminho da historiografia (não só a brasileira), ele dá uma verdadeira aula de como a democracia se desenvolve no país até hoje.

Nunca tive aulas com ele, mas tive o imenso prazer de ler os seus livros e até hoje acho um dos trabalhos mais brilhantes escritos sobre a história do país. 

Vendo a entrevista me lembrei da época em que ele foi imortalizado pela ABL e, pra variar, deixaram uma piada no quadro do Salão Nobre:

"O que é imortal, não morre no final"

Piada ou não, faz todo o sentido.


5 de outubro de 2011

Correndo com Tesouras

De todas as expressões da língua inglesa, uma das que mais gosto é "Running with Scissors" - literalmente "correndo com tesouras" - que significa basicamente o que a imagem sugere: algo entre viver perigosamente, andar em corda bamba ou brincar com fogo.

O que tem me colocado nessa posição de alvo fácil é o fato de começar, através deste blog, a expôr parte das minhas opiniões pessoais e visão profissional. Relendo o que escrevi até agora (2 posts publicados mais 3 incubados) fiquei um pouco apavorada com um dos princípios que eu mesma prego - tudo é sujeito a interpretações.

Nesse âmbito não há como ser autoritária a ponto de forçar essa ou aquela visão, sobre o risco de perder meu próprio parâmetro; bem como não posso ignorar a possibilidade de ver meus textos expressarem opiniões que não são minhas por falta de clareza.

Só me resta tentar explicar da melhor forma possível (dentro dos meus limites, óbvio) e esperar.

4 de outubro de 2011

Antes de Tudo, Um Pouco de Nada

Não está sendo fácil começar este blog.

A intenção era clara: passar um pouco do que eu chamo de "bastidores" do meu trabalho. O que faz um historiador e como vê o mundo a sua volta, estando ele relacionado ou não à sua linha de pesquisa.

Mas para isso, teria que considerar os seguintes fatores: 

Primeiro - meu "trabalho" ainda não é um trabalho no sentido literal da palavra. No momento (de sobrevivência entre bicos, outras atividades remuneradas não relacionadas e desemprego formal) não posso associar o que faço com atividades de participação na geração de Produto Interno Bruto. É trabalho no sentido de atividade intelectual direcionada e metodológica. Mas não paga minhas contas, nem põe comida na minha mesa; mas precisa de uma dedicação intensa, cuidado técnico e paciência de um artesão.

Segundo - Bastidores é um termo vago, que nada tem a ver com a análise crítica constante da sociedade e seu contexto cultural. O que eu pretendo expôr aqui é mais um condicionamento involuntário, de tentar entender a sociedade em que vivo e o mundo no qual estou inserida. Involuntário, pois não há como desliga-lo. Além disso discutir um pouco do que vejo e um pouco do que leio.

Terceiro - Seria, não só muita pretensão minha, como também um erro metodológico gravíssimo colocar meu pensamento e minha visão de mundo na posição de visão comum a todos os historiadores. Criar uma coleção de supostas "verdades/bases universalmente aceitas" em um meio acadêmico - o que chamamos de paradigmas - quando parte do trabalho é, justamente, criticar esses paradigmas; Cometendo um pecado que sei que muitos cometem, mesmo pregando contra.

Quarto - Estar relacionado à linha de pesquisa ou não, pouco interfere, uma vez que qualquer historiador que se coloca na posição de investigar um recorte temporal deveria, em tese, acompanhar e considerar seu próprio tempo presente como fator de direcionamento e condicionamento de sua pesquisa. Todos nós somos sujeitos e agentes contextualizados em nosso espaço-tempo. Ignorar isso é pressupor que existe neutralidade em pesquisa. Ou acreditar em Papai Noel.

Mas antes do último e decisivo fator, prestem atenção ao que acabei de fazer. Basicamente eu questionei todos os conceitos das minhas próprias afirmações. Lógico que esse questionamento é limitado pela minha capacidade e visão. Mas isso significa, pelo menos pra mim, que todo e qualquer questionamento sobre um assunto é válido por que contribui para redimensionar o mesmo em diferentes ângulos.

Então chegamos ao quinto fator a ser considerado: Afinal de contas, o que raios faz um historiador?

3 de outubro de 2011

Independente F.C.


Esse texto incialmente foi escrito no dia 07 de setembro, mas por motivos de força maior (churrasco no dia, preguiça depois) não pode ser concluído e postado na data.

Eu tinha prometido a mim mesma que não iria me arriscar tão cedo a montar um novo blog, mas cá estou fazendo justamente as duas últimas coisas que queria nesse feriado - criando um blog e trabalhando.

Pra quem chegou sem aviso, tenho 500 outros blogs sobre besteiras e baboseiras em geral (mentira, são só 3) e há tempos venho tentando sufocar a vontade súbita de escrever sobre meu trabalho - que consiste basicamente em... escrever.  

Tu-dum-pah!

Mas esse blog não tem a mínima pretensão ou obrigação de ser estritamente acadêmico ou consistir em pesquisa historiográfica pura. Não vou facilitar a vida nem a pesquisa de ninguém, e também não quero me ater à liguagem formal/técnica exigida na labuta... Isso aqui é um ensaio, um blog de comentários e conceitos com os quais trabalho e um pouquinho de descontração aliada a uma discussão contextualizada com o assunto que me der na telha.

Feita a introdução, vamos ao que interessa.

O que disparou o gatilho foi uma discussão entre amigos no Facebook, a partir de um comentário postado por uma amiga muito querida que é Geógrafa. O que invariavelmente acontece nesse tipo de situação: não consigo passar batida e fingir que não li. Ainda mais conhecendo a autora do comentário e a visão de História comum na sociedade brasileira que, volta e meia, deixa à mostra as falhas que historiadores como eu cometem por omissão.

Sim, a culpa é minha também.

Mas não há como esbarrar nesses tipos de desvio e, pelo menos, se esforçar um pouquinho para enfrentá-los.

[Ela] - Não é essa a independência que quero.

[Eu, provocando] - Tem outra?

[Ela] -  A conquistada teria sido bem melhor...

Bingo! Bem vindos ao primeiro desvio: A Retrodição.